PP12072012slot2_0015.jpg

 

null

  

null

   
A história maravilhosa de Peter Schlemihl, 2012 Ferro e borracha

 

A história maravilhosa de Peter Schlemihl é um conto publicado em 1814 por Adelbert von Chamisso (1781-1838), um poeta franco-alemão também conhecido por trabalhos na área da botânica. Peter Schlemihl – o protagonista desta “história maravilhosa”, como o título do livro sugere – vende a sombra a um estranho, na verdade o Diabo; porém, a recompensa que recebe traz-lhe infortúnio em vez de felicidade, pois suscita a indiferença de todos. O Diabo alicia-o, então, com a devolução da sombra em troca da alma, mas Schlemihl rejeita tal proposta, iniciando uma viagem à volta do mundo em busca da paz de espírito perdida. Schlemihl institui-se em alter-ego de von Chamisso, já que as reminiscências faustianas da narrativa traduzem, por um lado, a sua vertente mística e, por outro, o seu destino errante enquanto homem apátrida.

Lúcia Prancha interessa-se pela dimensão alegórica deste livro na medida em que compõe um tratado antirracionalista típico do romantismo. Efetivamente, a ênfase dada à emoção na narrativa posicionam-na no contexto deste movimento, que visava o regresso a uma ordem pré-moderna, na qual os sentimentos se sobrepusessem às ideias na vida social. A artista aborda esta problemática através da construção de uma estrutura sobre a qual pendura pedaços de borracha, referência a capítulos do livro, que assim se poderia dividir em fragmentos. Remetendo para objetos do quotidiano cuja estranha familiaridade perturba a sua inteligibilidade, enuncia a possibilidade de transformar partes da “história maravilhosa” protagonizada por Schlemihl em reflexos da biografia de cada um.

 

null

   

 

A sombra enrolada de Peter Schlemihl, 2012 Borracha

A história maravilhosa de Peter Schlemihl é um conto de 1814 da autoria de Adelbert von Chamisso (1781-1838), um poeta franco-alemão também conhecido como botânico. Peter Schlemihl, a personagem principal da narrativa, vende a sombra ao Diabo, disfarçado, recebendo uma carteira da fortuna como compensação. Contudo, em vez de felicidade, tal ato trouxe-lhe má sorte, pois Schlemihl apercebe-se que a sociedade amaldiçoa um homem sem sombra, porque diferente. O Diabo, ainda disfarçado, propõe-lhe a restituição da sombra em troca da alma, mas Schlemihl rejeita tal proposta, iniciando uma viagem que, sob a forma de expedição científica, expia o seu pecado original.

Uma das imagens associadas a este livro mais divulgadas é a do caricaturista inglês George Cruikshank (1792-1878), que desenhou o momento em que o Diabo, após adquirir a sombra a Schlemihl, a levanta da relva, enrola, dobra e coloca no bolso das calcas para levar consigo. É a este episódio, em geral, e à sua interpretação por Cruikshank, em particular, que Lúcia Prancha alude nesta obra. A artista analisa, assim, o dilema ético – e potencialmente estético – da problemática abordada por von Chamisso: a matéria e a alma equivalem-se ou anulam-se e corpo e sombra são unos ou representam o eu e o outro?

 

null

 


Sentados sobre o Brasil: réplicas de cadeiras de Lina Bo Bardi, 2012 Couro, lona e ferro

Lina Bo Bardi (1914-1992) foi uma arquiteta brasileira (nascida em Itália) cujo interesse pela cultura autóctone do Brasil a destacou no panorama arquitetónico modernista. Bo Bardi instalou-se em São Paulo com o seu marido, Pietro Maria Bardi (1900-1999), a seguir à II Guerra Mundial, um período de expansão económica no Brasil e de depressão numa Europa em reconstrução. Em 1950, Bo Bardi projetou a Casa de Vidro como residência para a sua família. Este edifício alberga, hoje, o Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, que promove a arte brasileira através da história pessoal do casal, em geral, e da sua coleção de arte e artefactos, em particular.

Lúcia Prancha reside em São Paulo desde 2009 e visitou a Casa de Vidro em janeiro do ano passado. Aí, a artista interessou-se por vários objetos que a habitação acolhe, entre os quais cadeiras desenhadas por Bo Bardi inspiradas em formas populares. Estas cadeiras utilizam materiais oriundos dos meios rurais do Brasil, como o ferro e o couro, e inscrevem-se num programa de criação de um design brasileiro assente na revalorização dos costumes locais que Bo Bardi protagonizou. Atento à especificidade do país – do clima à postura natural dos indivíduos – e baseado num entendimento dos estilos de vida de inspiração etnográfica, este projeto conjugava eficazmente tradição e modernidade.

Lúcia Prancha recriou um conjunto de cadeiras de Lina Bo Bardi, replicando a sua forma e empregando os mesmos materiais, adquiridos no Brasil. Dadas as suas características, estas cadeiras articulam-se com o ser humano sem que a mente processe tal ato – é como se elas aderissem ao corpo. Estas obras dispõem-se num terraço com vista para o rio Tejo, constituindo um ambiente descontraído, que suscita o convívio e outros modos de relaxamento. No contexto deste projeto, Lúcia Prancha organizou vários eventos – entre os quais a projeção ao ar livre de Vampyr, um clássico da cinematografia de terror de Carl T. Dreyer, e um concerto do grupo Tropa Macaca – em que os visitantes ocuparam este espaço-plateia sentando-se nas cadeiras obras ou, como o título sugestivamente enuncia, sobre o Brasil.

 

null

   

 


Sol Negro, 2011-12 Espuma e tinta em spray. Recorte de imprensa lido por João Adolfo Hansen, moldura em metal e vidro opaco

João Adolfo Hansen (1942-) é professor jubilado da Universidade de São Paulo, especialista em estudos de literaturas de língua portuguesa, sobretudo do período colonial brasileiro. Hansen destaca-se pela análise da construção da alegoria e a respetiva função na interpretação de textos e imagens produzidos no campo cultural. A 9 de novembro de 2011, Hansen e Adrián Fanjul deram uma aula pública na Universidade de São Paulo após a violenta tomada de posse do prédio da respetiva reitoria pela polícia, facto que culminou um período de contestação estudantil iniciado em 2009.

Nesta sessão, Hansen leu um artigo de opinião publicado na Folha de São Paulo, chamando a atenção para o papel desempenhado pelos meios de comunicação de massas na criação do imaginário coletivo. Durante o seu discurso, Hansen utilizou várias expressões para descrever os factos, alertando para a deturpação da informação protagonizada pelo colunista do jornal. Umas dessas expressões foi “o sol que emite uma luz negra”, que Lúcia Prancha apropriou para intitular esta exposição e que serviu de ponto de partida para a construção do que a artista designa como “fenómenos objetuais”, objetos que traduzem um evento não ilustrando-o mas convocando a sua experiência vivida.

Lúcia Prancha emoldurou o recorte de jornal utilizado por Hansen naquele dia, mas colocou-o por trás de um vidro fosco, obscurecendo-o no sentido de impedir a sua leitura. Com esta operação, a artista impede o espectador de testemunhar aquele acontecimento, mediando a sua perceção do mesmo por via não de um artefacto mas de uma evocação. Este modo de traduzir a realidade através de uma abstração manifesta-se no segundo elemento desta obra, uma bola preta que jaz em frente à moldura. Esta esfera materializa as metáforas empregues por Hansen na sua palestra, evidenciando enquanto forma o conteúdo de um momento do quotidiano investido de um sentido que extravasa a sua particularidade para se tornar sintoma da realidade.

 

 
null
  
 

 

(Foto no topo)


Formas desenhadas a partir das sombras de objetos de arte popular encontrados na Casa de Vidro da arquiteta Lina Bo Bardi durante a visita guiada ao Instituto Lina Bo e P. M. Bardi em janeiro de 2011, 2011-12 Vidro acrílico cortado a laser, arame, tinta em spray e borracha

Lina Bo Bardi (1914-1992) foi uma arquiteta brasileira (nascida em Itália) cujo interesse pela cultura autóctone do Brasil a destacou no panorama arquitetónico modernista. Bo Bardi instalou-se em São Paulo com o seu marido, Pietro Maria Bardi (1900-1999), a seguir à II Guerra Mundial, um período de expansão económica no Brasil e de depressão numa Europa em reconstrução. Em 1947, Pietro Maria Bardi fundou o Museu de Arte de São Paulo num edifício adaptado para o efeito por Bo Bardi. Em 1950, Bo Bardi projetou a Casa de Vidro como residência para a sua família. Este edifício alberga, hoje, o Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, que promove a arte brasileira através da história pessoal do casal.

Lúcia Prancha visitou a Casa de Vidro em janeiro do ano passado durante a sua estadia em São Paulo, onde reside desde 2009. Aí, a artista interessou-se por vários objetos que povoam a habitação, entre as quais cadeiras artesanais e outro mobiliário. Embora pertencentes à coleção de arte popular dos Bo Bardi, estes objetos possuem o mesmo estatuto que os restantes elementos decorativos da Casa de Vidro, transportando consigo a experiência vivida do casal. Lúcia Prancha fotografou estes objetos no local em que se encontram e, como se desenhasse o seu “espaço negativo”, delineou as sombras que hipoteticamente projetam nessas fotografias.

Lúcia Prancha utilizou as formas resultantes daquele exercício para elaborar as componentes de um móbil, um tipo de escultura quinética cunhada pelo artista norte-americano Alexander Calder na década de 1930. Tal como no caso de Calder, a estrutura suspensa da artista baseia-se na tensão entre equilíbrio e movimento para gerar uma sensação de encantamento junto do espectador. Porém, ao contrário de Calder, Lúcia Prancha ancorou as formas que compõem a obra numa dada circunstância, substituindo a abstração enquanto essência de Calder pela contextualização abstrata de uma situação. As formas deste móbil instituem-se, assim, em tradução de um evento: a visita à Casa de Vidro feita pela artista.

Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.
 

Detalhes