Windsor, Ontário – Depois do dilúvio da corrida do Rio de Janeiro no mês passado, a seguir à sessão Wild Card quando as chuvas torrenciais levaram a organização a cancelar a corrida no domingo, foi com naturalidade que regressaram as discussões sobre o que é considerado mau tempo... e quando este pode realmente afectar a competição. Com a aproximação da etapa canadiana do campeonato, este é sem dúvida o tema quente do momento entre as equipas. Isto numa altura em que as previsões para o fim-de-semana apontam para condições instáveis.
Um dos factores mais importantes na preparação de qualquer voo é a análise do estado do tempo... algo que tem que ser verificado religiosamente. É por essa razão que os pilotos se tornaram especialistas de um dia para o outro em formação de nuvens e outros fenómenos. Isso é apenas a consequência do tempo empregue na avaliação das condições prováveis para as suas actividades de voo. Então, quando perguntamos a Steve Jones – o especialista residente da Red Bull Air Race – do seu interesse em falar sobre o tempo, a abertura é total. Afinal de contas este é um assunto central e Jones tem muita sabedoria útil para partilhar.
Dificuldades em voar sem problemas
Os pilotos já estão a verificar mudanças significativas na velocidade dos ventos na pista localizada ao longo do rio Detroit e ladeada pelas cidades de Windsor e Detroit. O vento na pista não é necessariamente um desmancha-prazeres, mas se lhe adicionarmos chuva a história muda completamente de figura. É assim comum a conjugação de chuva, vento e de uma base de nuvens baixas. Com tudo a acontecer ao mesmo tempo, estamos perante um sistema meteorológico especial – e é precisamente aqui que a diversão começa. Isto, claro, para aqueles que são capazes de achar o estado do tempo algo divertido.
"A previsão aqui é bastante variável, com um pouco de vento, um monte de nuvens e quase de certeza chuva intermitente", afirma Jones, apontando para o céu a partir do Aeroporto Temporário da Red Bull Ar Race, durante a primeira sessão de treinos. "Isto pode implicar a interrupção do treino, qualificação ou a da própria corrida. No ano passado observámos aqui os ventos e verificámos que se pode voar bem quando este sopra numa certa direcção. Mas se o vento mudar de direcção, então muda totalmente a maneira de voar na pista. Há alguns edifícios muito altos no lado de Detroit que criam um fluxo de ar através da pista, tornando-a muito turbulenta. Isso torna-se muito complicado para os pilotos, para os quais se torna fisicamente difícil voar suavemente. Há também o vento "sombra" por detrás dos edifícios, de forma que na verdade nunca se sabe realmente o que está para vir."
Jones diz que esses ventos “sombra” podem causar um efeito semelhante ao de sebes ao longo de uma auto-estrada, que resultam num impacto inesperado sobre os veículos. "De repente, o avião perde estabilidade e isso torna a vida difícil para os pilotos", afirma Jones balançando a cabeça, concordando que a analogia do carro é uma boa ilustração. "Isso vai ser uma vantagem para os pilotos mais experientes. Também é uma grande desvantagem se as condições são variáveis, pois um piloto pode voar com chuva e outro sem este elemento – o que é uma enorme vantagem. As curvas verticais podem ser muito apertadas para uns e mais largas para outros, mas quando há um sorteio é mesmo assim."
A chuva afecta as manobras
Além de não ser muito divertido para os espectadores, a chuva também pode ter um impacto nas corridas tal como aconteceu na ronda sul-americano do campeonato. A questão, porém, é realmente o volume de água em questão e isso pode constituir um problema.
"Bem, qualquer chuva é má, mas podemos voar com uns chuviscos", explica Jones, um piloto muito habituado a enfrentar este tipo de condições na sua terra natal - o Reino Unido. "Podemos realmente voar com chuva, mas as equipas e os fabricantes têm gasto uma fortuna a projectar a forma das asas e as mais pequenas gotas de água têm uma grande influência”.
Os pilotos definitivamente não querem enfrentar qualquer alteração inesperada na capacidade de manobra dos seus aviões de corrida enquanto evoluem no traçado. Jones afirma que os pilotos podem fazer os seus cálculos para condições secas e as partículas de água no ar pode influenciar drasticamente as trajectórias, obrigando a novos cálculos.
"Na maior parte dos casos, os voos são feitos em condições secas e assim a maioria dos pilotos não sabe bem quais os limites de curva quando o tempo está molhado. A precisão não é a mesma, pelo menos. Se imaginarmos a capacidade de rotação do braço, o fenómeno é como a aderência dos pneus de corridas de um carro. Quando o piso está molhado, há menos aderência nas curvas", acrescenta Jones.
Danos nas hélices
A chuva pode causar danos nos aviões de corrida, com especial destaque para a maior erosão dos bordos de ataque da hélice. Segundo Jones, a hélice gira a alta velocidade quando encontra gotas de água no ar, o impacto pode ser significativo.
"Eu lembro-me de voar numa corrida em Berlim à chuva e o efeito foi bem visível. Toda a pintura fora das pás da hélice desapareceu e a chuva começou mesmo a corroer a estrutura", recorda o ex-piloto de corrida. "A água é um elemento realmente muito pesado e as suas gotículas são cortadas a uma velocidade de quase Mach 1, o que pode causar danos. A maioria dos pilotos está a voar com uma hélice Hartzell, que tem uma pastilha de metal na ponta tornando-se assim mais resistente. É este o elemento que absorve todo o impacto das partículas no ar."
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