A Casa que a arte construiu ganha mais sentido a operar num loop que nada tem de repetitivo: na Red Bull House of Art, a criação e a subsequente desconstrução dão lugar ao aflorar de novas expressões, que depois abrem espaço a outras, num ciclo da vida que não conhece limitações. Este é o lugar onde todas as linguagens se podem cruzar, a derradeira plataforma para a simbiose entre formas de arte. Aqui, uma nova ideia significa uma nova possibilidade.
Quem também opera loops que são tudo menos repetitivos é Biru. O rapper, poeta, beatmaker e, enfim, artista multifacetado, está a ultimar o seu novo projeto, “Diaphra’s Blackbook of The Beats”, cujos instrumentais foram desenhados fora de casa, apenas com um gira-discos e um sampler portáteis, sempre em lugares que o inspiram, reminiscentes do universo da arte em português. Um desses sítios foi a mostra de Filipe Felizardo, Camera Avis Struthia, produto da segunda residência na Red Bull House of Art, que se desenrolou sob a atenta e esclarecida curadoria de Natxo Checa.
“Eu posso não ter nada, mas aqui há tudo que preciso” é o lema do músico, que fez jus a essa ideia no solarengo terraço do torreão, em plena exposição de Felizardo. Biru, então sob o pseudónimo de Alexandre Francisco Diaphra, operou a sua intervenção no espaço através de uma performance crua e energética que resultou na faixa “O Bode Cuspia - The Escape of King Goat". Nesta experiência sensorial, que foi registada no vídeo “Nota de autor”, um dos capítulos do seu livro de apontamentos e ilustrações, pode agora ser vista por todos. A prioridade não passa pelo rigor técnico nem pela minúcia da batida, mas antes pela verdade musical presente nas percussões africanas, samples psych e baixos herdeiros da tradição UK. Este e todos os outros outputs sónicos da viagem de BiruLexIcon, nome pelo qual o artista também é conhecido, serão reunidos num livro e editados em audio e video, num futuro próximo.
Três residências artísticas já passaram pela Red Bull House of Art, deixando a sua marca transformadora no velho tanque de água do LX Factory, mas também na alma de quem lá subiu para visitar as exposições. O ano de 2012 será mais um de criação livre e prolíferas sinergias artísticas – a primeira delas arranca já a 1 de Fevereiro com a obra de Ricardo Barbeito e a curadoria de Alexandre Melo.
Este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.
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